A CONSTRUÇÃO DO
ESTADO-NAÇÃO NO BRASIL E NA ARGENTINA
Num ano em que comemoramos 200 anos da chegada da Família
Real ao Brasil e do início da construção
do nosso estado nacional é preciso atentarmos
para alguns aspectos que só podemos perceber
quando comparamos o processo de construção
do Estado-Nação brasileiro ao argentino.
Notamos que houve convergências em alguns aspectos,
mas muito mais divergências em outros. Estas diferenças
começam a se delinear já a partir do início
do século XIX, quando Brasil (1822) e Argentina
(1810) já esboçavam questões geopolíticas
regionais totalmente díspares.
Se o Brasil manteve sua integridade (unidade) territorial,
a América Espanhola não conseguiu mantê-la,
fragmentando-se em dezenas de pequenos estados nacionais,
ainda que a Espanha se constituísse naquele momento
num grande império, mas suas colônias americanas
não tinham qualquer unidade política e
territorial.
Em 1776 criou-se o Vice-Reinado do Rio da Prata com
um comando unificado e uma relativa unidade política
até 1810. Mas, porque esse Vice-Reinado não
conseguiu manter sua unidade, ao contrário do
Brasil? Podemos falar em algumas hipóteses, quais
sejam: primeiro, na Argentina havia um nacionalismo
liberal que se vinculava a uma espécie de paroquialismo
mesquinho das elites sul-americanas que se colocavam
contra os interesses das elites portenhas. Para compreender
essa hipótese basta verificarmos que os exércitos
libertadores republicanos formados em Buenos Aires se
concentraram nas regiões andinas do Chile, Peru
e Equador sob o comando de San Martim. Outro aspecto
que corrobora com essa primeira hipótese foi
o fato de que a única cidade que a Espanha não
recuperou após 1810 foi Buenos Aires. Logo, se
Buenos Aires arcou com o custo da luta da independência
da América do Sul espanhola, suas elites, por
outro lado, não buscaram impor uma unidade política
após 1810, ao contrário, negligenciaram
o grande legado histórico de luta pela independência
e deram início a uma luta fratricida entre si.
A segunda hipótese é revisionista e também
parte da idéia de um nacionalismo liberal, mas
inclui o papel que jogou a Inglaterra na defesa de seus
interesses na região. Nesse sentido, acredita
que os ingleses intervieram no processo para impedir
que não se formasse na América espanhola
um grande estado federativo nos moldes dos EUA. O que
poderia colocar em xeque ou em risco os seus interesses
econômico-comerciais. Para tanto, usou métodos
escusos como a corrupção e a “compra”
das elites sul-americanas, conseguindo assim produzir
uma espécie de “balcanização”
da América do Sul espanhola. Essa interpretação
se consagra com a Guerra do Paraguai e a Guerra Cisplatina,
vistas como evidências do comportamento balcanizador
do império britânico.
Existem mais outras três hipóteses: uma
geográfico-social, uma ligada à idéia
de sociedades antigas consistentes e uma última
chamada de comparativa que diz respeito ao regime político.
De acordo com esta última hipótese, a
unidade política e territorial brasileira se
consolidou numa ordem monárquica sem elos institucionais
suficientemente fortes para se criar uma nação.
Isso, porque o estado nacional brasileiro se constituiu
a partir da vinda da Coroa Portuguesa em 1808 e do predomínio
dos interesses econômicos da Inglaterra. Neste
caso, a monarquia brasileira, constituída logo
depois, conseguiu transferir poder e, portanto, subsistiu
por um longo tempo.
Já as elites rural-escravocratas foram incentivadas
a manter a unidade nacional em torno de um regime teoricamente
“legítimo”. Assim, o estado-nacional
se propôs proteger os interesses dessas mesmas
elites em troca de apoio para a manutenção
de uma unidade nacional (vide a criação
da Guarda Nacional em 1832). Daí o cálculo
em torno do custo-benefício entre elites e poder
central foi favorável no Brasil, diferentemente
da Argentina, onde a questão do regime político
foi discutida permanentemente pelas elites portenhas,
principalmente no sentido de se incorporar ou não
as massas populares ao processo de construção
de um Estado-Nação. No Brasil, esse debate
foi suplantado por um estado permanentemente belicoso.
Ao passo que, na região do Rio da Prata, a idéia
do regime político (monarquia ou república)
foi mais central que a guerra.
Líderes caudilhos como Rosas na Argentina e Artigas
no Uruguai tinham projetos distintos de estado e não
conseguiram convergir no sentido de encontrar uma forma
de incorporação das massas e, consequentemente,
de uma unidade nacional legitimada em torno de um regime
republicano. No Brasil, a legitimidade do regime monárquico
não passou pela incorporação política
das massas, mas do uso do imaginário coletivo
em torno de guerras.
A hipótese geográfico-social baseia-se
no aspecto territorial como base para a formação
da unidade territorial brasileira, ou seja, o Brasil
conseguiu desenvolver uma noção de limites
territoriais desde o Tratado de Tordesilhas. Já
a Argentina não tinha um território concretamente
definido. Sendo que, a percepção de perda
territorial na Argentina é muito forte, principalmente
após 1810 com a independência do Uruguai
e do Paraguai, além das terras perdidas para
o Chile, o Peru e o Brasil (região das Missões).
Logo, a história da nação argentina
é uma história de perdas territoriais
ao longo da primeira metade do século XIX. Enquanto
que, no Brasil, a percepção de conquista
territorial vai de Tordesilhas a Rio Branco. A idéia
de nação na Argentina começou com
Rosas quando conquistou a Patagônia e venceu os
paraguaios.
Outro aspecto da hipótese geográfico-social
é o que demonstra que a história do estado
nacional brasileiro no século XIX é uma
história de elites, diferentemente da Argentina,
onde a história é não só
uma história de elites, mas também de
incorporação de massas no processo de
construção da nação, pois
as mesmas estiveram por várias vezes presentes.
Parte dessa baixa incorporação das massas
no Brasil se liga ao regime escravista e à ausência
de um mercado consumidor. Ao contrário da Argentina,
onde os homens livres tinham a opção de
vender sua força de trabalho sem, com isso, dependerem
dos senhores, da elite ou do estado. Além disso,
a Argentina precisou de suas massas para guerrear no
século XIX. O Brasil, por sua vez, não
dependeu das massas, pois as elites conseguiram recrutar
escravos e homens livres dependentes para atender a
um estado quase que obsessivo por guerras, sejam elas
internas ou externas. Além do que, no Brasil
havia uma cultura conciliatória entre massas
e elites. Daí a importância de um regime
político legítimo, no caso, uma monarquia
“constitucional e parlamentar” no Brasil,
mas republicano respaldado nas massas e dominado pelas
elites na Argentina. Por lá, as massas viram
a possibilidade de ganhos de cidadania com o apoio à
República, inversamente do Brasil onde as massas
viam na República a possibilidade de perdas de
uma pseudo proteção do estado de D.Pedro
II. |