NEM CIRO, NEM O BISPO, MAS SIM
SÃO FRANCISCO
Na semana passada o Congresso Nacional realizou mais
uma audiência pública para discutir o projeto
de transposição do rio São Francisco
proposto pelo Governo Federal e que já tem suas
obras iniciadas. Na oportunidade enfrentaram-se aqueles
que defendem a transposição do rio e aqueles
que são contrários.
O projeto de transposição do rio São
Francisco já é antigo, mas somente agora
ele começa a sair do papel. O Governo Federal
realizou um estudo minucioso sobre as implicações
de se transpor uma parte muito pequena do rio em direção
a áreas norte e leste do sertão semi-árido,
hoje carentes de chuvas (menos de 250 mm/ano) e lençóis
freáticos com água de boa qualidade (água
salobra). A proposta é transpor menos de 1% do
volume da água do rio, atendendo as necessidades
hídricas de quase uma dezena de milhões
de pessoas. Com essa água irrigando o solo ressecado
do sertão, os pequenos camponeses poderão
produzir alimentos para sua subsistência e algum
excedente que lhes permita disponibilizar ao mercado
consumidor local. Será a redenção
da agricultura familiar nordestina. Claro que muitos
latifundiários também se beneficiarão
com a possibilidade de utilizarem esta água transposta
para atender seus projetos agropecuários.
Os contrários ao projeto alegam que o rio corre
o risco de morrer definitivamente caso seja transposta
parte dele. Defendem que primeiro é preciso revitalizar
o rio, combatendo a poluição provocada
pelo despejo de quantidades gigantescas de esgoto químico,
doméstico e industrial em suas águas.
Principalmente porque um dos seus mais importantes afluentes,
o rio das Velhas, recebe boa parte dos esgotos da região
metropolitana de Belo Horizonte. Mas também recebe
esgoto de centenas de cidades que estão às
suas margens ou às margens de seus afluentes
e sub-afluentes. Outro grande problema enfrentado pelo
São Francisco é o assoreamento de seu
leito por conta do desmatamento em suas margens, produzido
pela expansão de áreas agrícolas
e de pecuária. Com isso, o rio está realmente
muito agredido, seja pela poluição hídrica,
seja pelo desmatamento de suas margens e o conseqüente
assoreamento de seu leito. Logo, revitalizar o rio é
urgente e necessário, caso contrário,
irá se transpor uma água de muito pouca
qualidade. Isso, se houver água suficiente para
se transpor.
O São Francisco também tem sido sacrificado
com a construção de grandes usinas hidrelétricas
ao longo de seu curso. Três Marias, Paulo Afonso,
Sobradinho, Moxotó, Itaparica e Xingó
formam enormes lagos represados que, ao longo das últimas
décadas, alteraram profundamente o regime do
rio, acumulando a água em grandes reservatórios
no médio São Francisco e reduzindo muito
o volume de água disponível rio abaixo.
Entretanto, se não fossem essas usinas de energia,
dificilmente a região Nordeste do Brasil teria
condições de crescer e se desenvolver,
pois carece de fontes de energia elétrica renovável.
Podemos ainda falar de projetos que deram certo, como
o Jaíba, que criou uma extensa rede de irrigação
das terras às margens do rio permitindo o desenvolvimento
de uma moderna agricultura. Hoje essa região
ao norte da Bahia e junto à fronteira com o estado
de Pernambuco é um dos mais importantes produtores
de frutas tropicais do mundo. A maior parte da produção
é escoada para o exterior (EUA, U.E. e Japão),
gerando emprego e renda para milhões de pessoas
que antes viviam miseravelmente naquelas terras semi-áridas
do sertão. Em Petrolina, o Governo Federal inaugurou
um aeroporto internacional para permitir que a produção
agrícola de frutas possa ser escoada facilmente
para os principais mercados mundiais.
Durante a audiência estiveram presentes o Bispo
D. Luiz Flávio Cappio, os atores Osmar Prado
e Letícia Sabatela que se manifestaram contrários
ao projeto. Do outro lado, estavam os técnicos
do Ministério da Integração Nacional
e o Deputado Federal Ciro Gomes. Ocorreu, inclusive,
um bate boca entre o ex-Ministro Ciro Gomes e o Bispo
D. Cappio e a atriz Letícia Sabatela. Os argumentos
usados pelos que são contrários ao projeto
são muito mais de conteúdo emocional,
diferentemente dos argumentos dos que são a favor,
pois estes usam de estudos extremamente profundos do
projeto e de seus impactos ambientais, econômicos
e sociais sobre a região sertaneja nordestina.
Logo, fico me perguntando: até que ponto um Bispo
tem conhecimento técnico suficiente para se contrapor
a esse projeto de transposição? Será
que ele sabe mais que os técnicos do Ibama e
do Ministério da Integração? Creio
que a Igreja Católica, assim como qualquer outra
Igreja deveria só se manifestar mediante argumentos
científicos sólidos e convincentes. Caso
contrário, deveriam se eximir de questões
que envolvem não só o interesse nacional,
mas a possível solução de problemas
centenários do povo brasileiro. Por isso, eu
pessoalmente defendo o projeto de transposição
do rio São Francisco porque penso que os benefícios
serão maiores que os danos que porventura possam
ocorrer. Mas, ao mesmo tempo defendo sua imediata revitalização
e sua integração a outras bacias hidrográficas,
especialmente a do Tocantins, de modo que ele tenha
maior disponibilidade hídrica. De qualquer forma,
já em setembro de 2008 o Governo Federal deverá
iniciar o bombeamento de água para o primeiro
trecho de canais abertos pelo Exército Brasileiro,
ficando as duas etapas seguintes a cargo da iniciativa
privada.
|