QUE CRISE É ESSA?
Ao final do século XIX a economia mundial sentiu
a necessidade de estabelecer um novo padrão monetário
internacional, pois o velho modelo monetário
mostrava-se superado. Até então, as trocas
comerciais e os fluxos financeiros internacionais ocorriam
sob a forma de metais preciosos. Os países estabeleciam
um determinado lastro em ouro para suas moedas e, assim,
trocavam papéis lastreados em ouro entre si.
Dessa forma, cada país tinha uma reserva em ouro
que dava ao seu papel-moeda um determinado valor diante
das outras moedas. A prata também era muito utilizada
para pagamentos de transações comerciais
e financeiras entre os países. Contudo, a descoberta
de imensas jazidas de prata pelo mundo afora fez com
que esse metal perdesse sua capacidade de servir como
um equivalente de trocas internacional.
Restou ao ouro assumir o papel isolado de moeda internacional.
Logo, a partir de 1870 estabeleceu-se o primeiro Padrão
Monetário Internacional. Grã-Bretanha,
França, EUA, Japão, ao adotarem o ouro
como padrão monetário, induziram todo
o restante do mundo a aderir a este novo padrão.
O ouro tornou-se a principal referência para se
medir o valor das moedas e a capacidade de pagamentos
dos países.
Esta relação moeda-ouro permaneceu intacta
até o início do século XX, quando
os EUA detentores de gigantescas reservas de ouro começou
a distorcer o sistema financeiro internacional. Além
disso, as disputas imperialistas por áreas produtoras
de matérias-primas, alimentos e energia fóssil
na África e Ásia levou à eclosão
da Primeira Grande Guerra Mundial. Com isso, todo o
sistema financeiro internacional se desarticulou e o
mundo passou a viver uma enorme incerteza quanto à
sobrevivência do capitalismo.
Os russos optaram por um sistema totalmente diferente,
baseado na propriedade coletiva e estatal dos meios-de-produção
e a centralização e planificação
econômica, isto é, o comunismo. Alemães,
italianos e japoneses substituíram a crença
no liberalismo pelo nazifascismo, assim, o Estado passou
a definir todo o processo produtivo conduzindo-o aos
seus interesses. Fábricas de tratores agrícolas
poderiam produzir tanques de guerra e fábricas
de panela bombas, se o Estado assim desejasse. As pessoas
não tinham mais a livre iniciativa para decidir
como investir seus recursos ou onde trabalhar. Era o
Estado quem decidia o que deveria ser feito com a poupança
das pessoas ou onde cada um deveria trabalhar.
A crise de 1929 e a Segunda Grande Guerra Mundial fez
com que o sistema capitalista se desestruturasse totalmente.
OS EUA e a Grã-Bretanha foram os únicos
países a continuarem acreditando no liberalismo,
mesmo assim com um naco de desconfiança keynesiana.
O Estado já não tinha nenhum pudor em
intervir no mercado, rompendo com o princípio
quase que sagrado da liberdade pregado por Adam Smith
no século XVIII. Bancos, empresas, fábricas,
bolsas, fazendas e tantos outros agentes produtivos
eram obrigados a se submeter às regras impostas
pelo Estado, pois somente assim se evitaria uma nova
débâcle do sistema.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o sistema capitalista
já não era mais o mesmo. Os EUA, na Conferência
de Bretton Woods, conseguiu impôr ao restante
dos países capitalistas um novo Sistema Monetário
Internacional baseado no Ouro-Dólar. Eles garantiam
ao mundo que o Federal Reserve (FED) pagaria US$ 35,00
por cada onça de ouro (cerca de 32 gramas). Dessa
maneira, o Dólar se transformou em moeda corrente
internacional servindo como meio de troca nas transações
comerciais e financeiras entre quase todos os países
do mundo.
Mas a Crise do Petróleo e a derrota na Guerra
do Vietnã nos anos 1970 levaram o governo americano
perceber que suas reservas de ouro não eram mais
suficientes para cobrir todo o volume de dólares
em circulação no mundo. O resultado disso
foi que, em meados de 1974 os EUA decidiu unilateralmente
que o novo Padrão Monetário Internacional
passaria a ser simplesmente o Dólar. Os norte-americanos
assim afirmavam sua hegemonia político-militar
afirmando para o restante do planeta que não
precisavam de reservas de ouro para lastrear sua moeda,
pois a mesma estaria garantida por um aparato bélico
incomparável, como porta-aviões nucleares,
milhares de aviões supersônicos e muitas
bombas atômicas.
A partir desse momento o pensamento liberal se fortaleceu,
nascendo daí o pensamento neoliberal. Suas propostas
eram essencialmente no sentido de que o Estado não
deveria intervir na economia garantindo apenas que o
mercado funcionasse livre de regras e mecanismos de
controle. O Estado, portanto, deveria reduzir seu gigantismo
keynesiano se transformando num “Estado Mínimo”
que cuidaria apenas de prover serviços e bens
públicos aos mais pobres. Uma onda de desestatizações
(privatizações), desregulamentações,
desindexações, desnacionalizações
e abertura de mercados atingiram o mundo como uma verdadeira
tsunami, desconstruindo todo o aparato de bem-estar
social erguido após a Crise de 1929 e a Segunda
Guerra Mundial.
Ronald Reagan nos EUA, Margareth Tatcher na Grã-Bretanha,
Helmut Kohl na Alemanha Ocidental e Pinochet no Chile
foram os primeiros chefes de Estado neoliberais. Entregaram
a condução da sociedade às forças
do mercado. Essa política neoliberal conjugada
com uma revolução tecnológica e
científica que introduziu a robótica,
a automatização e a informatização
dos processos produtivos resultou numa explosão
de desemprego estrutural, exclusão social e sucateamento
do Estado.
Por aqui, na América Latina, depois do Chile
que foi o precursor, o México e a Argentina foram
os primeiros países a adotar o neoliberalismo
como modelo político-econômico. O Brasil
resistiu durante quase duas décadas, até
que no início dos anos 1990, com a eleição
de Collor de Mello o modelo neoliberal começou
a ser implantado por aqui. Mas foi mesmo FHC e a aliança
entre tucanos e pefelês (PSDB e DEM) que colocaram
em funcionamento o projeto neoliberal no Brasil. Em
poucos anos venderam a preço de banana empresas
estatais nas áreas de telefonia, energia, siderurgia,
mineração, bancos, rodovias, ferrovias
e tantas outras. Com isso, a economia brasileira se
desnacionalizou quase totalmente. A abertura de mercado,
por outro lado, quase fez quebrar setores importantes
da indústria nacional, como calçados,
brinquedos e tecidos. E o pior, a máquina pública
estatal foi sucateada a tal ponto que a população
se viu sem acesso a serviços de saúde,
educação, assistência social e segurança
pública. Realmente, foram os piores anos de nossa
história recente.
Mas, o mundo dá muitas voltas e agora estamos
assistindo a uma crise sem precedentes no sistema capitalista.
Os EUA que receitou o neoliberalismo como remédio
a quase todo o mundo fazendo com que aqueles que adotaram
este receituário fossem à bancarrota (México,
Brasil, Argentina, Rússia, Coréia do Sul,
Turquia etc), agora experimentam do seu próprio
veneno. A excessiva liberdade dada ao mercado, a amputação
da capacidade de intervenção estatal e
a loucura de se criar riqueza a partir de papéis
está levando a maior economia do mundo a conhecer
sua maior crise desde 1929. É como se eles não
tivessem aprendido a lição.
Estamos assistindo a algo inacreditável. O país
mais liberal do mundo, Meca do capitalismo, estatizando
bancos e seguradoras num desespero total. O dólar
assim, tende a perder seu poder de sedução
e novas moedas se tornam o porto seguro para quem quer
realmente preservar suas reservas. O Euro, principalmente,
ganha fôlego e se mostra bem mais estável
e seguro. Assim, o que se está presenciando é
o início de uma transição em direção
a um novo padrão monetário baseado inicialmente
no Euro-Dólar e, finalmente, no Euro. Pois é,
quem diria um dia veríamos o gigante norte-americano
cair de joelhos diante da economia mundial e países
antes desacreditados, como Brasil, Índia, Rússia
e China, vendo tudo isso de longe sem se contaminarem.
Tomará que os liberais aprendam a lição
e percebam que só o Estado salva, pois no frigir
dos ovos o mercado recorre é a ele para não
ir para no fundo do poço.
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