POR UMA REFORMA TRIBUTÁRIA
JUSTA
A reforma tributária é uma das maiores
demandas que o Brasil precisa solucionar se quiser ter
um crescimento econômico sustentável pelos
próximos anos. Trata-se simplesmente de fazer
justiça tributária, cobrando mais de quem
tem e pode mais e isentando de contribuir aqueles que
têm pouco e não podem pagar. A lógica
da boa distribuição de riquezas é
a do Robin Hood, ou seja, deve-se tirar dos ricos e
passar às mãos dos pobres.
A Coroa Portuguesa sempre impôs uma pesada carga
tributária sobre a Colônia e, depois da
Independência, o Estado brasileiro manteve esta
ganância fiscal. Assim, a questão tributária
sempre foi um tema polêmico e capaz de levar a
revoltas e rebeliões, como a Revolta de Felipe
dos Santos (1720), a Revolta de Beckman (1684), a Inconfidência
Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798),
a Guerra dos Farrapos (1835-45), a Guerra de Canudos
(1893-97) e muitas outras.
Claro que sem impostos não há Estado que
consiga funcionar. É cobrando impostos, taxas
e contribuições da sociedade que o Estado
consegue recursos para cumprir suas atribuições
enquanto tal, como o fornecimento de serviços
públicos nas áreas de saúde, educação,
previdência e assistência social, justiça,
segurança, além dos gastos correntes com
a máquina burocrática e administrativa,
como pagamento de funcionários e prestadores
de serviços e também investimentos em
obras de infra-estrutura em transportes, energia, saneamento
etc. Daí a importância dos impostos para
qualquer Estado.
O problema é que a carga tributária brasileira
(hoje em torno de 36% do PIB) incide principalmente
sobre a renda, o trabalho e a produção.
O correto seria fazer os impostos incidirem sobre a
riqueza, o consumo e a especulação. Nesse
sentido, a redução da carga tributária
sobre produtos básicos, como alimentos, tecidos,
vestuário, calçados, combustíveis,
energia entre outros, poderia permitir que as classes
sociais de menor renda pagassem menos impostos e, com
isso, lhes sobraria mais renda.
A criação de um Imposto sobre as Grandes
Fortunas (IGF), previsto em nossa Constituição
Federal, cobrado de forma progressiva, poderia permitir
que estados e municípios tivessem uma fonte de
arrecadação capaz de lhes dar fôlego
para lidarem com suas enormes demandas sociais. Alguns
tributaristas calculam que um imposto de 1% sobre o
valor atualizado dos bens pode significar um acréscimo
de 4% do valor do PIB no total da arrecadação
do Estado. Também é preciso estabelecer
a lógica da progressividade para todo e qualquer
tributo, fazendo com que quanto mais alta seja a renda
e consumo, maior seja a riqueza e maiores sejam os ganhos
no mercado financeiro, maior será o imposto a
ser pago.
O Imposto Territorial Rural (ITR) é tão
insignificante que temos situações em
que grandes propriedades rurais pagam um valor equivalente
a um refrigerante por ano ao Estado, portanto, a alíquota
do ITR deve ser revista impondo ao latifúndio
a responsabilidade de arcar com parte do financiamento
do Estado. Além disso, o ITR e o ITCD (Imposto
de Transmissão de Causa Mortis e Doações)
devem ser passados para a competência dos municípios,
permitindo-lhes aumentar a receita de modo a custear
suas obrigações constitucionais, como
educação, saúde, infra-estrutura
etc.
O Imposto sobre heranças também precisa
ter sua atual alíquota (4%) aumentada de modo
que a concentração de riquezas não
se perpetue por gerações. O Imposto sobre
Serviços devem ficar somente na competência
dos municípios e não devem ultrapassar
3%, pois uma alíquota superior a isso acaba incentivando
a informalidade e a sonegação.
O Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) tem
hoje apenas duas faixas (15% e 27,5%). Qualquer país
mais civilizado tem em média cinco faixas ou
alíquotas. Dessa forma, estariam isentos todos
os trabalhadores que recebessem até R$ 2.000,00
(salário mínimo ideal calculado pelo DIEESE)
e, a partir daí teríamos alíquotas
que iriam de 13% a 42% do salário total recebido,
com intervalos de 8% entre as faixas salariais.
Por fim, é necessário eliminar a regressividade
na contribuição previdenciária
para aqueles que ganham mais do que o teto de contribuição
(hoje R$ 334,28). Ou seja, quem ganha até o teto
do INSS contribui com 8,9% sobre a renda, já
quem ganha acima disso, contribui com 5,2% e pior, quem
ganha de R$ 10.000 e R$ 20.000 contribui com 3,2% e
os que ganham acima de R$ 20.000 contribuem com apenas
1,6%. Chega a ser desumano e incompreensível
esta lógica perversa de contribuição
que penaliza quem ganha menos. Logo, é possível
desonerar as empresas de pagarem parte da contribuição
previdenciária patronal se a contribuição
dos que ganham acima do teto fosse de 11%.
O tributo que gera maior arrecadação no
país é o ICMS (7,3% do PIB). Atualmente
os Estados definem suas alíquotas de ICMS (em
média 18%), o que tem provocado uma verdadeira
“Guerra Fiscal” no país. Para se
fazer mais justiça tributária e melhor
repartição do bolo arrecadado, o ICMS
precisa ser padronizada eliminando assim a “Guerra
Fiscal” e estimulando o crescimento econômico
dos estados mais pobres e atrasados. Também é
preciso definir que o ICMS será recolhido tanto
pelo estado produtor, como também pelo estado
consumidor de modo que ambos ganhem e arrecadem. Hoje,
o ICMS é recolhido pelo estado produtor. O que
faz com que os estados mais ricos e desenvolvidos fiquem
ainda mais ricos e desenvolvidos e que os estados mais
pobres e atrasados fiquem condenados a uma situação
de eterna penúria e dependência dos repasses
da União. Enfim, a Reforma Tributária
precisa ser implementada o mais rápido possível
para que o Brasil realmente encontre o caminho do crescimento
sustentável.
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